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CINEMA, MÚSICA, PINTURA

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Denison Souza, arte-educador, escritor free lancer;

meu trabalho já foi publicado no Jornal do Recôncavo e Correio da Bahia

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Minha experiência com Ozu


 
Por Denison Souza

Ozu desprezava o melodrama, os excessos, as hipérboles dramáticas, fazendo um cinema contemplativo e sereno.
Ele nao fazia dramas, mas realistas comédias agridoces em torno de um mesmo universo (a família, em formação ou dissolução) e suas extensões (a escola, o bar, o escritório). Seu minimalismo escrupuloso recende ao mais puro jansenismo formal.
Ozu sentia imensa ternura pelos seus personagens, jamais julgava seus atos, limitando-se a observá-los com o máximo de isenção possível. Este mestre, conservador, conciliatório, também no desapego a ação drástica e no respeito a valores como a prudência, a acomodação estóica e a submissão fatalista ao inexorável, o inevitável na vida, era um artista universal. Uma das coisas mais belas nos filmes de Ozu é a ausência das cenas mais dramáticas. Se alguém é atropelado, por exemplo, ele prefere que alguém conte (narre) o acontecido, mas, evita mostrar a cena trágica. Enquanto Ingmar Bergman fazia questão de mostrar a morte nos olhos dos seus personagens, a dor da doença, Ozu não mostra nada. Vemos apenas o morto estendido e coberto, pronto para ser velado. Ninguém grita com ninguém, ninguém agride ninguém; quando acontece, o outro não reage. E a agressão é sempre suave (como um tapa com luvas).

Grande cineasta japonês, que se achava provinciano, na verdade, um grande artista universal. Seus temas podem ser identificados por qualquer cultura, seja do Oriente, seja do Ocidente. 
Aparentemente seus filmes são todos iguais, mas, se for dedicada a atenção e a paciência necessárias, pode-se notar pequenas diferenças deliciosas entre um filme e outro.
Nenhum objeto nos filmes de Ozu existe à toa (um trem que passa, uma ponte, uma placa); as chaminés e suas fumaças, por exemplo, podem significar a transitoriedade das coisas. As diversas águas fluindo e mudando de posição podem significar as mudanças da vida.

Ozu, este sereno poeta do cotidiano familiar nipônico, criou filmes memoráveis. Fim de Verão é um filme que resume tudo que Ozu valoriza: a criança enjoada, o casamento arranjado, o senhor de idade que não é respeitado pela família como deveria, a falta de moral, a bebedeira, a luta pelo trabalho, a gueixa, o escritório, o bar e as mulheres.
Se Mizoguchi se concentra nas mulheres, Ozu se concentra em todos: foca nas crianças, nas mulheres, nos velhos, nos homens de escritório...em todos!
A Rotina tem seu Encanto é um filme também sublime! Síntese de todas as preocupações estéticas e morais de Ozu. Como foi o seu último filme, tornou-se também seu testamento.

Os filmes de Ozu não tem aquelas intrigas elaboradas que encontramos nos enredos americanos. É um cinema zen, de contemplação e observação resignada. Cinema de aceitação e não de rebeldia. Os filmes de Ozu valorizam mais o gosto pelos detalhes do que a história propriamete dita.
Estes filmes costumam valorizar as passagens das estações, a rotina e os conflitos individuais que alteram um pouco esta rotina, e os pequenos prazeres: uma boa conversa, um sakê, uma tigela de macarrão, um copo de cerveja, mas, também os grandes conflitos familiares que, em Ozu, se apresentam leves e delicados. Aliás, um problema de um indivíduo nos filmes de Ozu são sempre do interesse de quase todos os personagens da trama, o que dá uma certa dose socialista aos filmes do velho mestre. Se uma moça está se tornando quase tia, um casamento arranjado pode ser preocupação do irmão, da irmã, dos pais, mas também do tio, do vizinho ou do colega de trabalho.

A calma é a tônica. Quando alguém é posto a tomar uma decisão, leva quase o filme todo para sabermos qual a decisão tomada, seja se quer conhecer um pretendente, se quer se casar, se aceita mudar de cidade para servir a empresa, toda decisão é levada a cabo paulatinamente. Todo filme de Ozu se dilui paulatinamente no final, como a sexta sinfonia de Tchaikovsky, onde o verdadeiro adágio está no final. Sempre há uma solução bombástica aos problemas, uma implosão que resolve tudo, desata os nós, mas, há sempre um se deixar levar pela dissolução. No cinema americano o final é sempre a dança de todos, a festa, a união...em Ozu o final pode ser o afastamento, a dissolução, o evaporar-se, a ausência, a morte.

O forte dos filmes de Ozu é o gosto pelos detalhes e pelos prazeres e pelos problemas familiares e a simbologia das estações e objetos inanimados e animados (relógio, ponte, placa de coca cola, ciclistas, remadores passando pelo rio), não é a história em si, não é a atuação dos personagens, não é o julgamento dos valores, é a vida como ela é e como deve ser aceita. O vazio e o silêncio como resposta.
O túmulo de Ozu, um pequeno quadrado de mármore negro, não tráz na lápide nenhum nome ou data. Morreu no mesmo dia que nasceu, em anos diferentes. Na lápide, apenas um ideograma chinês antigo - mu - que significa VAZIO, NADA. Nos filmes de Ozu o Nada se faz presente como resposta aos questionamentos.

Uma das coisas que mais me fascina no cinema de Ozu são os diálogos incomuns. As vezes alguém não ouve o que foi dito e pergunta: o que? Ou uma pessoa demonstra tédio num diálogo e fica sem assunto, situações impossíveis no cinema Ocidental, tão direto e cheio de diálogos rápidos. Ou apontar para uma pipa (algo que não tem nada a ver) e fazer uma observação que tem a ver com os sentimentos naquele momento, fazendo a ligação entre o objeto e a emoção. Outra característica que é proibida no cinema ocidental é o fato de os personagens olharem diretamente para a câmara, para o expectador, a ponto de quase aborrecer, incomodar. Ou a câmara quase o tempo inteiro parada, mirando a altura dos quadris. Quanto a este assunto, muitos críticos vêem a câmara na altura dos quadris como a nostalgia do cineasta fixando a altura do olhar da criança (seu ponto de vista) diante do mundo do adulto.
Mas temos de considerar também que a câmara baixa foi descoberta por acaso. Para filmar Coral de Tokio, forçado a colocar a câmara a alguns poucos centimetros do solo para filmar crianças, Ozu gostou do resultado e passou a usar com adultos. A câmara de Ozu as vezes mexe. E quando mexe (as vezes, um zoom, um travelling) chega dá medo, cria um mistério terrível, acostumados que estamos com a câmara parada.
Ozu sempre utiliza elementos da cultura zen: arte floral, teatral (kabuki), musical (sempre cantam nos filmes dele), poesia, cerimônia do chá, velórios...e apresenta um olhar mais contemplativo do que julgador. Pura aceitação sem resignação, enunciação sem sujeito, pura memória co-extensiva ao presente, ao hoje.
Ao contrário de Mizoguchi ou Kurosawa, Ozu não alterna o momento épico com o intimista; Ozu é sempre intimista. O cinema dele não explode como o americano, implode; não se expressa, se imprime; não é analitico, é sintético, essencial!

Ozu trabalha cinco temas básicos: o casamento arranjado, as relações de trabalho, a morte, os conflitos de gerações e os problemas de relacionamento típicos das famílias. Todos os seus filmes são variações dos mesmos cinco temas. 
Pais que se sacrificam pelos filhos, pais velhos incompreendidos e abandonados, gerações que não se entendem, filho que se sacrifica pela mãe, as dificuldades dos assalariados, crianças desobedientes e rebeldes, tudo isso para mostrar a metamorfose da vida da classe média nipônica e do processo de ocidentalização sofrido pela familia tradicional japonesa. Tudo filmado com um humor sutil e irônico, ou com uma tristeza suave e indiferente.
Os relatos de Ozu em histórias parecidas, mas não iguais, que visam o realismo puro e terminam por transcendê-lo. Os personagens de Ozu não se olham nos olhos, olham para o vazio. E quando fixam o olhar em alguém, o cineasta mostra-os fitando a nós, os expectadores, olhando diretamente para a câmara.
A relatividade do olhar dos personagens faz deles pessoas quase mortas, como as naturezas mortas que aparecem nos filmes como mensagens a partir de imagens inanimadas, que trabalham o espaço, mas também o tempo. Não é só o virtuosismo plástico, através de suas imagens puras que introduzem o vazio no espaço dramático, Ozu também trabalha o fator tempo. E é como uma reflexão no tempo que o seu cinema se realiza: tempo de transformações (por isso as estações estão presentes em seus filmes e títulos), tranformações sociais, de gerações, transformações individuais e familiares, tempo de vida e de morte. Ozu não se aprofunda na vida após a morte e no espiritual, como Ingmar Bergman; o cineasta japonês foca o presente, a presença e a ausência no plano material, no aqui e agora. Não há flashbacks em Ozu. O mestre japonês faz comédia, cria um mundo fantástico por transcender a realidade com sua linguagem plástica, mas, não cria um mundo onírico como Buñuel ou Fellini. A realidade cruel e inevitável está sempre lá; Ozu não dá concessão ao sonho. Apenas à esperança. Ninguém sonha nos filmes de Ozu, ninguém sai da realidade, apenas um pouco, quando bebe (várias cenas com bêbados) ou está muito feliz (as conversas e brincadeiras das mulheres reunidas) ou brincando (neto com avô, crianças ou homens de trabalho fazendo gozações uns com os outros). Mesmo as crianças estão sempre atentas à realidade ao seu redor e ninguém as engana. As ausências de realidade nos filmes de Ozu são realistas, não são oníricas ou fantasiosas.

Ozu nunca se casou com uma mulher. Viveu sempre com a mãe. Casou-se apenas com o cinema!
 

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