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CINEMA, MÚSICA, PINTURA

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Denison Souza, arte-educador, escritor free lancer;

meu trabalho já foi publicado no Jornal do Recôncavo e Correio da Bahia

domingo, 31 de dezembro de 2017

Haydn...por que não?




O problema com Haydn é que… por onde começo? Compositores são divididos em duas categorias: os parcimoniosos e os prolíficos. Arnold Schoenberg, que figura entre os primeiros, jamais escreveu mais do que uma peça por ano. Haydn podia escrever três em uma semana.

Contudo, ao contrário de outros compositores compulsivos, diferente de Mozart com sua “Pequena Serenata Noturna” ou Mendelssohn com sua onipresente marcha nupcial, Franz-Josef Haydn nunca compôs nada que chamasse tanta atenção como essas melodias emblemáticas. Ele escrevia peças boas, de maneira constante, levando seus editores a lançar seis peças para quartetos de cordas sob mesmo número de opus, a fim de mascarar sua produtividade insensata.

Na década de 1920, um rico alemão chamado Antony van Hoboken começou a coletar  manuscritos e primeiras edições de peças deixadas por Haydn, com a intenção de compilar um catálogo definitivo. Ele desistiu após alcançar cinco mil itens e, embora todos os trabalhos de Haydn estejam catalogados, novas descobertas continuam sendo feitas. Existe muito Haydn para a cabeça de qualquer um, e este ano, que marca seu bicentenário de morte, está sendo responsável pela dor de cabeça de vários organizadores de festivais. “Como fazer Haydn?” é o lamento angustiado que mais se ouve.

A obra completa foi lançada recentemente em um box contendo 150 CDs e, ainda que o preço seja incrivelmente barato, esse lançamento tende a ser um problema a mais para quem deseja conhecer sua obra. Porque, embora os produtores do selo Brilliant tenham separado sua obra por gênero com cores diferentes, o tamanho da coleção esmorece a vontade de ouvi-lo. O “ano Haydn” não será fácil de ser comercializado.

Mas deveria ser. Haydn é uma das personalidades mais importantes da música clássica, inventor da sinfonia e do quarteto de corda. Mozart chamava-o de “Papai Haydn”, declarava que ele era “o pai de todos os compositores”. Haydn, no entanto, não se contentou em criar moldes. Pôs-se a preenchê-los com 104 sinfonias e 68 quartetos, composições até engenhosas e divertidas, mas que dificilmente nos levarão à loucura. Ele também produziu concertos para oito instrumentos diferentes; várias missas; dois grandes oratórios, A criação e As estações; treze óperas em italiano e seis em alemão; inúmeras obras para trios e para piano. Sem mencionar centenas de cantos ingleses, escoceses e galeses.

Enquanto vivia em Londres na década de 1790, Haydn foi convidado por três editores diferentes de Edimburgo, que lhe pediram acompanhamentos instrumentais para o folclore escocês. O preço era de um ou dois guinéus (antiga moeda de ouro inglesa) por canto, além de presentes como lenços de seda e uma caixinha de rapé. Deslumbrante na arte de musicalizar os dialetos, ele produziu o suficiente para preencher 20 CDs. Ao saber que Anne Hunter, esposa de seu cirurgião em Londres, havia publicado um livro de poemas, propôs-se a musicar alguns de seus versos.

Caminhos até Haydn

Há caminhos para se chegar a Haydn, mas isso exige uma análise de seu contexto. Grandes maestros ao longo dos anos entenderam que Haydn não é um compositor que mereça um programa exclusivo, mas que serve de aquecimento para outras peças. Toscanini apresentava a sinfonia no 92 de Haydn, antes de Dom Quixote, de Richard Strauss, enquanto Furtwängler tocava a sinfonia no 88 como aperitivo para a Sinfonia no 4 de Schumann ou de Bruckner, iluminando assim as verdades sinfônicas mais profundas através da luz de Haydn. Thomas Beecham, de maneira menos pedagógica, começaria um concerto com uma sinfonia do último Haydn, a fim de dissolver as tensões urbanas de uma plateia que acabara de encerrar o dia de trabalho.

Qualquer um que tenha o trabalho de pesquisar as peças de Haydn, logo perceberá que não se trata de um compositor que, a exemplo de Mozart ou Beethoven, realizou inovações consistentes ou mostrou maior tenacidade composicional. Durante boa parte de sua vida, Haydn conduzia sua orquestra em uma casa no interior, na cidade de Esterházy, para divertir a pequena e ociosa nobreza local nas noites de inverno. Ele produzia novas obras, sem grandes inovações. Os aristocratas húngaros que o financiavam não queriam que suas conversas fossem perturbadas com nada extraordinário.

Haydn tentava tornar suas sinfonias mais vendáveis dando nomes a elas. A Sinfonia nº 92 tem o título de Oxford porque a conduziu na célebre universidade, por ocasião de seu doutorado. A surpresa (Sinfonia nº 94) aplica no ouvinte um pequeno choque e O relógio (nº 111) faz tic-tac. As sinfonias de 82 a 87, escritas para a cidade de Paris, e as de 93 a 104, feitas para Londres, são suas composições mais vigorosas. Mas, durante seus 60 e poucos anos, Haydn aproveitou bastante sua boa vida na corte de Londres, com sua amante, Rebecca Schroeter, e não compôs nenhuma obra audaciosa. Era um artista conservador, charmoso e convencional. Gravações das sinfonias londrinas por Antal Dorati, Neville Marriner e Nikolaus Harnoncourt mostram o máximo de vivacidade que pode existir em Haydn.

Existe uma gravação encantadora feita por Jacqueline du Pre do Concerto em dó maior para violoncelo e outra feita por Martha Argerich do Concerto em ré maior para piano. Os quartetos foram gravados à exaustão pelos Amadeus, os Lindsays e outros, mostrando várias fases da vida de Haydn e aprofundando o apreço por sua personalidade serena, bem-humorada e exigente apenas no seu direito de compor. Sua natureza está presente no engenhoso Quarteto Lark, de 1790, no qual o canto de um pássaro torna-se o assunto de uma conversa civilizada a quatro vozes, culminando em algo como uma giga escocesa.

Contemplativo

Em uma certa manhã, enquanto trabalhava na peça
A criação, considerada sua grande obra-prima, Haydn foi interrompido com a visita de um diplomata. “Vê como as notas se comportam como ondas?”, disse o compositor, apontando para a subida e descida das cadências em sua partitura. “Aqui também é possível ver montanhas”. Lançou um grande sorriso ao visitante perplexo: “Às vezes”, continuou Hadyn, “é preciso ser sério e se divertir ao mesmo tempo”.

Seu amor pela Inglaterra persistiu mesmo após retornar à Viena, onde escreveu uma missa para a vitória inglesa na Batalha do Nilo e onde conduziu a cantata Ariadne em Naxos com a namorada do almirante inglês, Emma Hamilton, no papel principal. Em seu leito de morte, aos 77 anos, Napoleão realizou ataques na cidade de Viena. “Não tenham medo”, disse o compositor, “Haydn está aqui, nenhum mal vai acontecer”.

Afirmei antes que ele não havia deixado nenhuma melodia emblemática. Houve uma, mas foi roubada dele. Era um tema do Quarteto Imperador, que se tornou o hino nacional da Áustria, em 1797, chamado Gott erhalte Franz den Kaiser, e que depois foi utilizado pela Alemanha no Deutschland über alles. Haydn provavelmente temeria essa notoriedade. Percebendo que sua melhor melodia havia sido “confiscada” pela nação, sentou-se ao piano e criou variações sobre esse tema, desta vez removido de pompa e de fervor, com tom levemente melancólico: um Haydn contemplativo, dialogando afinal em paz consigo mesmo.

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